domingo, abril 11, 2010

PSICANÁLISE SILVESTRE

A Psicanálise Silvestre Se o relato da paciente ansiosa que procurou Freud fosse aceito, exatamente como foi aludido, tendo o jovem médico ignorado certo número de teorias e regras técnicas da psicanálise e cometido uma incompreensão e erro “científico”, poderíamos dizer houve a pratica da psicanálise silvestre. Assim como acontece com o jovem estudante que pratica com bastante constância, seus “joelhaços”, equívocos de reprodução e representações. Registrando que o material para a construção deste artigo não tornou possível permanecer limitado somente ao seu conteúdo e, ao buscar-se ir além, incorreu-se no perigo de cometer-se todos os atos necessários para caracterizar a falta de técnica da psicanálise silvestre.  Antidesenvolvimento Desde a fundação da Associação Psicanalítica Internacional e de que a psicanálise foi difundida, as idéias, alguns termos técnicos e algumas regras da técnica psicanalítica foram sendo apropriados e absorvidos pela cultura (principalmente a ocidental). Analisada, criticada, relida, re-visitada e revisada, não, necessariamente de forma isenta, investigativa ou ética, nem restrita aos seus associados, mas a todos os interessados, de diferentes áreas, simpatizantes ou não.
No meio acadêmico de psicologia pode-se observar o que ocorre no senso comum: comentários equivocados, representações subjetivas, opiniões pessoasis, ou descaracterizadas, daqueles que ainda não possuem uma visão ampla ou suficiente desprendimento isento e investigativo. Com o passar do tempo este desconhecimento pode ser eventualmente e suavemente substituídos pelo interesse e esforço em desfazer a maioria dos possíveis erros, equívocos e/ou incômodas incompreensões, clarificando o campo de ação associativa e produtiva. Mas quem estaria pronta a esta análise?
Refazer e deixar o mais evidente possível a trajetória contextualizada de Freud é sempre válido, estamos presos aos paradigmas, e eles nem sempre deixam perceber que o que acontece hoje não pode ser igual ao que acontecia na época em que ele estava vivo.
Alunos de psicologia que variável ou invariavelmente têm contato com as técnicas da psicanálise reproduzem constantemente equívocos similares ao do jovem, desconhecido e injustiçado médico do subúrbio que foi vinculado às colocações de Freud acerca da psicanálise silvestre. Bom que isto ocorresse no campo teórico e só nas fases mais iniciais e teóricas de estudos.
Cabe lembrar que vivemos em tempo de “liberdade” de conhecimento, qualquer um que tem acesso livre às teorias (às vezes, até a prática) não os tem aos critérios e a responsabilidade ética. O direito de apropriação ilegítima sendo preservados em prol desta pretensa “liberdade” só permite propagar erros e causar danos. O dito é tido como certo, por falta de crítica, critérios ou avaliação: é mais fácil crer que investigar. Iatrogênia, método ou remédio que mata o doente, é bobagem! Não são observados critérios para que se adote responsabilidade ética antes de danos e das tragédias.
Boa e completa leitura das obras de Freud, graduação e especializações são insuficientes, podem abastecer de falsidades a vinculação para divulgação imediata e mediada, via TV, paga pelos piores comerciais, mais caros e inimagináveis. É isto o que os novos tempos exigem: altas cifras em horário nobre.
Já em sua época Freud asseverava para importância do aumento de legitimidade nas terapêuticas: “o empobrecimento do ego devido ao grande dispêndio de energia, na repressão, exigido de cada indivíduo pela civilização, pode ser uma das principais causas desse estado de coisas.” (As Perspectivas Futuras da Terapêutica Psicanalítica). Da mesma forma que os lugares legítimos ficam vagos existe perfeita banalização de tudo. As técnicas e teorias são vendidas como produto “kit” serializado, onde somos “obrigados a engolir” idéias equivocadas como: o “Macarrão é vendido como objeto de desejo (...). Massas comuns perdem espaço no mercado brasileiro”.
Uma séria resistência (coletiva e induzida) não nos permite analisar profundamente nosso tempo, cultura, consumo, produção de lixo, sociedade e legitimidade. Será que negamos tornar-nos adultos saudáveis tal qual propõe as perspectivas? Não atravessamos com êxito a construção de nossos superegos? Estaremos tão doentes que não suportamos qualquer tipo de tratamento ao ponto de negarmos perspectivas futuras?
Meu “joelhaço” fixa a fala na tolerância ao hiperconsumismo desenfreado, na produção de montanhas de lixos e ao isolamento individualista e lucrativo. Como se nossa mais bela obra de arte permitisse jogarmos bombas, ou aviões uns nos outros enquanto disfarçamos cantando o “Jingle” da última campanha da paz chamada “civilização, eu me amo”!
O Joelhaço Quando nascemos, nominados e “esperados”, nosso ambiente nos impõe, determina e manipula as variações mínimas e os limites daquilo que será ou não aceito. A punição ao que escape deste determinismo é a Exclusão! Semelhante a Dom Quixote, cavaleiro errante, esquizofrênico, apontado pelo discurso médico, social, econômico e cultural. O reforço se faz através do nosso vital e necessário Pertencimento!
            Através daquilo que é chamado desenvolvimento humano, vamos comprando e vendendo, sem limites de idade, a modelagem única. Modelagem que garante ao doente pertencimento ao “Kit” neurótico, rico e de alto Q.I. e, é aí, que a psicanálise não tem autoridade e autorização para o avanço, pois andamos em círculos. Nossa submissão humilhante ao método único é garantida em prol da “santa normalidade” científica e globalizada. Enquanto vamos fingindo nosso padecimento e pertencimento, vamos dando “vivas” e “salvas” ao Grande Irmão (“Big Brother”, George Orwell) num “Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley) assumindo aos brados de: Viva a involução! Salve a natureza Humana!
            Enquanto isto o determinismo puro e a assimetria triunfam para seguirmos não analisáveis e eternamente compromissados como nosso modelo único de mundo e realidade paralisantes: paralisados, empobrecidos, de forma individual e coletiva. Autonomia, solidariedade ou evolução podem morrer, junto com muitos seres humanos, ao esbarrarem no limite da “linha de borda”. Pensar ultrapassar esta linha de fronteira é garantir o estigma de “cavaleiro errante”, louco.
Ou controlamos a loucura para não ultrapassar esta linha do conhecimento ou ultrapassamos a linha e as regras, comendo da árvore do conhecimento e sendo fatalmente excluídos do mundo consensual da realidade, engolidos pelo mar da loucura desconhecida e descontrolada. Fazemos as duas e tantas outras coisas...
            Dentro do “kit” adotamos uma psicanálise silvestre, das técnicas com menor tato e com inverdades consentidas, equívocos produzidos. Reproduzidos nossas resistências, doenças e “ciências” que garantem a não psicanálise, promovendo melhor a falta de análise e tratamentos.
Finais Para deixar nascer e crescer o lugar do tratamento dentro de nossa época e sociedade não podemos pensar que sofremos de uma espécie de ignorância e que a posse de informação nos fará remover esta ignorância, pois o fundamento desta, está na sua resistência interna: “A tarefa do tratamento está no combate a essas resistências”.
A psicanálise não dá esta “informação”, ela se apresenta quando o paciente está preparado a alcançar a proximidade do que ele reprimiu e quando tem uma ligação suficiente com o intermediário, ou seja, com a própria psicanálise e com o outro. Esta ligação suficiente não autoriza o psicanalista assumir posturas e o suposto saberes, pois isto é o próprio sinal/sintoma de ligação insuficiente, carregada de pouquíssimo sacrifício de tempo e sucesso na aquisição das técnicas necessárias. Esta é a ligação insuficiente entre os pacientes, ou interessados no método e resultados (a sociedade) e os psicanalistas (psicanálise).
            Somente “forço as portas” e a atenção para possíveis causas de nossos distúrbios coletivos, propondo tentar melhores formas e evitar dano as convivências. Creio estarmos necessitados de analises profundas, de repensar nosso envolvimento real como pessoas e como sociedade (seu produto), mesmo que já tenhamos passado do ponto retorno.
Vale mais dar outra volta novamente que permanecermos estagnados e não andarmos. Ou nosso ego não suporta o desafio de crescermos para uma realidade mais humana?!

            Obras consultadas: STRACHEY, James. Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996 - volume VII (1904, p. 257/262); volume XI (1910, p.127/136); volume XII (1912, p. 149/159 e  164/187); volume XIII (1914, p. 241/247).

terça-feira, abril 06, 2010

Mapa dos céus