domingo, maio 09, 2010

O que somos?

Somos Inclassificáveis[1]
As perguntas que nos faz Reis (2000) merecem respostas bem profundas:
Seria possível produzir um discurso sobre o Brasil desapaixonado, científico, verdadeiro? Dificilmente. É por isso que todas as representações do Brasil são relevantes, pois, juntas, revelam uma idéia do Brasil complexa, poliédrica, uma idéia composta de idéias, de projetos, um polígono de múltiplas faces ao mesmo tempo opostas e interligadas em uma mesma figura (. . .) O problema que se propõe ao debate é: como se deu a formação do Brasil-Nação? Não há resposta única, fechada, sistemática para esta questão.
O autor, sem fechar as possíveis respostas, refere que “dependem do sujeito histórico” que tome a palavra e, se é ou não brasileiro, pois são inúmeras as perspectivas, quantas são as combinações possíveis de cores. Pensar no Brasil não dispensa múltiplos modos de pensamentos, de pensar e perguntar:
Quem são os "heróis" da história brasileira? Quais são os grandes eventos, as datas mais fortes? Em que direção o Brasil se encaminha? Que juízo de valor elaborar sobre as experiências brasileiras? A resposta revelará a identidade social e histórica de quem toma a palavra. (. . .) todas sustentáveis por uma argumentação coerente e reconhecível. Existem versões do Brasil de origem senhorial, burguesa, proletária, classe média, camponesa, sem-terra, paulista, mineira, nordestina, sulista, negra, indígena, feminina, imigrante, migrante, caipira, urbana, suburbana, litorânea, sertaneja, oficial, marginal, militar, civil, etc... A maioria delas ainda não formulada, silenciosa. (. . .) discursos e representações usam a história dita científica para legitimar seus interesses e paixões. Imaginário, mitologia e reabertura de arquivos se confundem (Reis, 2000).
Ao acentuarmos a relevância da memória e da cultura para formação poliédrica de identidade(s) brasileira(s) estaremos refletindo sobre o sentimento de cidadania adormecido e esquecido nos sujeitos construtores da história, as suas e do país, pelo desconhecimento, descontentamento e a desvalorização de suas raízes.
O foco maior é a identidade, mas eis que ela invoca, categoricamente, toda a sua família: memória, subjetividade, política, etc., parentes próximos dentro da cultura, ou das culturas, brasileiras, sendo redesenhadas e provocadas cada vez que uma é chamada à manifestação.
Os múltiplos significados que compõem uma nação multifacetada e futurista incentivam a idéia de que o berço esplêndido não é embalado para fazer dormir, mas é sacudido pelas bases até que acordem os gigantes.
Nos movimentos como os do modernismo[2], referido ao país, e na dinâmica globalizante de “características prigoginianas” (Tofler, 1994, p.289-290[3]) que os sistemas mundiais vêm assumindo nas mais diversas sociedades não há país ou nação alguma que possa ficar “impávido colosso” [4].
Esta nação foi sendo constituída de forma substancial e indelével sob(re) marcas psico-sócio-históricas e étnicas, de aventura, pioneirismo e pluralismos. Referimo-nos, também, aos econômicos, políticos, raciais e culturais e toda a violência e ambivalência que isto carrega.
A imagem é, quase sempre, de um país receptivo ao que é estranho e estrangeiro. Submissão sempre reeditada a uma nova forma de colonialismo, como na imposta pela globalização e, simultaneamente, como um reflexo de um país que se reconhece multicultural e é reconhecido como facilmente adaptável e aberto ao mundo e ao novo.
O Brasil, de várias diferentes tribos de índios, colonizadores de todas as partes do mundo, colonizados, brancos, mestiços, negros de variadas nações; livres, escravos, colonos, imigrantes, emigrantes, americanos, europeus, orientais, ocidentais, etc. Mestiçagem e miscigenações construídas sobre a confluência e absorção pacífica de múltiplas diferenças. Lugar onde e quando, plantando “tudo dá”, abertura, também ao malandro, ao ladrão, ao aproveitador, ao menino/menina de rua, ao politiqueiro, capitalista, individualista, empresários do crime organizado, perversos e neuróticos de colarinhos brancos ou azuis, etc.
As gigantescas características de belezas e diferenças não encobrem os grandes, graves e complexos problemas e muitas camadas de substâncias ficam demasiadamente ocultadas, mesmo ao mais brasileiro dos brasileiros, quiçá para estrangeiros que não adentram além de suas praias neste reino de vasto sertão (Ser tão: veredas...[5]). Verdades de multiplicidade, biodiversidades sociais, culturais e psicológicas onde o referencial fica ampliado no conceito de identidade brasileira “colonizada”.
Fonseca descreve uma história do pensamento ocidental moderno comprometida com a continuidade e renovação do projeto iluminista através do empirismo lógico, Positivista. Processo em que confundiu a concepção a respeito da natureza por meio da confiança epistemológica do mecanismo que a torna “passiva, eterna e reversível” [6], através da lógica e método de dominar e controlar, onde o conhecer significa quantificar através da “matematização do universo”, da natureza e da realidade (1998, p.41).
A crise se instala onde o ideal de um saber universalizante iluminista e eurocentrista encerrariam a falsa imagem de possibilidade de uma identidade nucleada: “uma comunidade formada por seres iguais e dotados de instrumentos capazes de garantir entre eles, o consenso” (Fonseca, 1998, p.40). Tal crise se instala a partir das evidências do desgaste do reducionismo letal nas marcas de um “modelo global e totalitário”, ao quê acrescentaríamos antiético e desumano: “(. . .) na medida que nega o caráter racional a todas as formas de conhecimento que não se pautarem pelos princípios epistemológicos e pelas regras metodológicas” (Santos, citado por Fonseca, 1998, p.40).
À redução do mundo, dos sujeitos e dos objetos numa fórmula universal da cultura científica – do mercado global – cientificante e ocidental europeizada, não são poupadas críticas ao método em seu poder de padronizar – convivência idealizada e adaptativa.
A falta de um rigor na revisão epistemológica aplicada à Ciência só ajudaria a reduzir as possibilidades do mundo, de seus sujeitos, objetos e seus projetos, mas não podem esconder, nem impor o completo esquecimento destas táticas aplicadas arbitrária e compulsoriamente à revelia dos sujeitos do Estado de Direito e seus poderes emancipatórios. São discursos de verdades que beneficiam somente os beneficiáveis: elites eleitas, contínuas, unas e indefinidamente no poder, contando com exclusividade nos consensos destes discursos de verdades.
Não que o conhecimento deva evitar o precioso conceito de consenso entre os iguais, mas estes iguais serão sempre quem? Os mesmos? Poderíamos imaginar um reciclador de lixo, um sem-teto, uma mãe solteira, um ex-drogado, etc. dentre estes iguais? Algum pobre? Um idoso ou um doente? Algum excluído seria contado em sua (não) identidade? Ou estes expatriados serão contados sempre entre identidades de sub-classes? E, portanto, não quantificáveis ou confiáveis: não humanos e totalmente, sempre, excluídos.
Uma sociedade que desconhece seu potencial e não acredita ser capaz de prosperar, subsiste em uma realidade que não é sua, agrega elementos culturais que não tem, ou não precisam mais ter ligação com sua substância e não permite que o sentimento de cidadania desperte nas ações novas forma de ser e de se fazer ser.
Os discursos (nacionais) ficam dispensados de valor e relegados ao mundo subdesenvolvido de “sub-classes” (Bauman, 2005, p.46), deslocam, substituem, condenam e condensam imagens fantasiadas e falsificadas sobre a Nação, seus sujeitos e os seus fragmentos.
Encontramos nas nossas raízes, fora também, as causas para este estado de alienação típica da violência dos explorados e desrespeitados, ética e culturalmente. Está no surgimento do conhecimento da Ciência o estatuto de garantir algo pra alguém que pertence, definindo e identificando os pertencedores, excluindo outros saberes. Alguns poucos que possuem o privilégio de serem iguais, aumentando as desigualdades, as diferenças e promovendo farsas e identidades controláveis.
Dentro dos Estudos Culturais a identidade é um fenômeno construtivo, não definido a priori, e sem a qual não se concebem os sujeitos e muito menos suas nações:
A visão de cultura, bem como das identidades e subjetividades aqui discutidas, mesmo entendendo-a como um campo de conflitos e lutas, afasta-se da proposição de uma avaliação epistemológica de falso e verdadeiro, enfatizando uma luta em torno da imposição, da construção de significados. (. . .)não objetivamos buscar uma Verdade, mas sim problematizar constructos, como por exemplo, muito tempo ocupou-se a Psicologia do conceito de identidade como essência, como estabilidade eternamente idêntica a si mesma e fundamental para um processo de evolução do sujeito (. . .)vários autores tratam da identidade como um requisito fundamental para uma saúde mental adequada, necessária, etc. (Bernardes & Hoenisch, 2003, p.123 e p. 96).
Os autores vão dizer que não se trata de uma pura “concepção de sujeito e subjetividade passível” de simples “decodificação” a partir de signos ou significados pré-determinados, fazendo valer um jogo aberto de processualidade e constituição de modos de ser, ver e operar no mundo (Bernardes & Hoenisch, 2003, p. 106).
Escosteguy define os Estudos Culturais como sendo um “(. . .) campo de estudos onde diversas disciplinas se interseccionam no estudo de aspectos culturais da sociedade contemporânea (. . .)” (2003, p.66). Tratando-se, em outra definição, de um campo de estudos que não pretende ter rígido e fixo, uma disciplina, propondo-se “abrir as questões ao invés de fechá-las” (Guareschi; Medeiros & Bruschi, 2003, p.23).


[1]  Em referências à música de Arnaldo Antunes, álbum Silêncio, BMG, 1996. 
[2] Semana da arte e a “antropofagia”, “pós”, “hiper”, etc.
[3] Ilya Prigogine, prêmio Nobel de Química, pelas “estruturas dissipadas”, conforme o autor, que pontua sobre os sistemas vivos abertos e em permanente troca de energia.
[4] Referência ao hino nacional Brasileiro.
[5] Referência a obra de Guimarães Rosa (2001).
[6] No sentido de inesgotável. Na ilusão de ser um movimento que controlamos e onde será eternamente possível contar com a regeneração desta “natureza” (Fonseca, 1998).

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